Se olharmos o corpo sob uma visão puramente biológica iremos compreendê-lo como um conjunto de órgãos cujas funções foram projetadas geneticamente para manter a vida material equilibrada - a saúde orgânica. Ao concebermos um ser-animado alargamos essa visão restrita e, vendo-o na interação com outros, passamos a admitir a necessidade da sua existência em grupos humanos estáveis, aquilo que chamamos de vida social. As características dessa associação em grupos, por sua vez, irão determinar não apenas sua sobrevivência mas, sobretudo, a qualidade de vida que poderá ter.
Observando a vida social dos grupos humanos “in loco” – e através de estudos etnológicos – percebemos muitas diferenças entre o conviver coletivo das sociedades naturais e o conviver individualista nas sociedades contemporâneas. Apontamos o processo civilizatório como o mais provável divisor de águas nessa composição de diferenças e a criação do Estado Nacional como instituto que permite e mantém as desigualdades sociais – um equivoco institucionalizado.
A sobrevivência sempre foi um forte estímulo mobilizador do comportamento humano. Em épocas remotas, quando o homem só podia contar com o ambiente natural para sobreviver, necessitava da força do grupo como elemento indispensável para manter-se vivo. O individuo sempre precisou estar ligado a grupos para existir, sobreviver e identificar-se como individualidade.
É possível que os avanços tecnológicos – desde a invenção da flecha e da roda até a corrida espacial – produções humanas, tenha contribuído fortemente para as mudanças nas relações dos grupos humanos atuais. É preciso admitir que a divisão dos bens produzidos e da riqueza material é tarefa difícil. Exige qualidades nem sempre a disposição de todos os indivíduos.
Pierre Clastres, etnólogo francês que estudou os índios Ianomâmi refere-se a aspectos profundos da sua organização sócio-politico-religiosa contida no cerne de sua vida tradicional. Uma profunda sabedoria extraída da síntese do comportamento desse povo – que não conhece e nem aceita a estrutura política do Estado Moderno - poderia ser traduzida pela seguinte expressão: “Seres humanos nunca estarão preparados para lidar com grandes volumes de poder. Quando isso acontece eles perdem a razão e se tornam violentos. E todo o povo sofre”.
Foi com essa visão que conseguimos conceber o caos que representa a vida civilizada: na existência dos hospitais psiquiátricos, das instituições prisionais e dos lixões habitados das grandes metrópoles. Se os índios Ianomâmi estiverem com a razão, nós os civilizados, precisamos descobrir outras formas de conviver. Essa é uma questão antiga que remonta a muitos séculos, antes mesmo do aparecimento do Cristo.
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