Todos os fenômenos que ocorrem sobre a face da Terra poderiam ser classificados, com simplicidade, em dois grandes grupos:
1. Os que se relacionam com o comportamento humano.
2. Os que não se relacionam com o comportamento humano (fenômenos da natureza).
O comportamento humano é moldado segundo a cultura dos povos. Desse ponto de vista podemos classificá-lo em mais dois grupos:
1. O comportamento dos povos civilizados.
2. O comportamento dos povos primitivos.
Sabe-se que, atualmente, existem reduzidas populações do que se convencionou chamar de "povos primitivos" (sociedade humanas naturais) e que o planeta foi ocupado, em quase sua totalidade, pelo que se conhece como "culturas civilizadas".
Na realidade não existe uma autêntica cultura civilizada. O conceito de cultura, embora amplo, poderia ser traduzido como o resultado total de conhecimentos, crenças, artes, moral, leis, costumes e quaisquer outras aptidões e hábitos adquiridos pelos homens, como membros de uma sociedade ou grupo. Na verdade um "modelo cultural" relativamente estável deve seguir regras harmoniosas na sua evolução, para ser reconhecido e respeitado pelos membros desse modelo. Essas características próprias de cada modelo ancoram-se no que se costuma chamar de "tradição do modelo cultural". A síntese de um modelo cultural está representada por suas "características de tradição". Esse conjunto de características exerce forte influência sobre os membros pertencentes a cada modelo cultural e se reflete na base informativa e formativa do comportamento individual. Sendo assim, cada indivíduo é levado a se comportar segundo as características (sentimentos, princípios e valores) do modelo ao qual se encontra ligado. Como cada indivíduo possui seu próprio mundo psíquico, esse psiquismo está sujeito às normas, variações e organizações (ou desorganizações) do modelo cultural em que se situa e com o qual interage.
Foi a partir de 1972 que, seguindo essa linha de pensamento, iniciamos uma observação mais minuciosas do comportamento humano, através dos conceitos de Comportamento Ativo e Comportamento Reativo, ambos relacionados ao meio sócio-familiar-cultural, onde se situam os indivíduos. Percebemos que as pessoas agem e reagem frente a situações do meio ambiente externo (família, sociedade, cultura) e interno (psiquismo individual). Que as formas de agir ou reagir, são tentativas de readaptar-se ou protestar; que geralmente estão ligadas a sobrevivência física e emocional; que o intercâmbio entre esses meios é a única e singular forma de existência e convivência individual com o social. A vida de cada um de nós, circula entre esses dois pontos em busca de equilíbrio. A base que sustenta a nossa atuação no teatro da Vida é a Biosfera (meio ecológico), onde várias outras formas de vida e de meio físico também existem para garantir nossa existência.
A proposta do conceito de Comportamento Ativo serve apenas para representar a conduta humana harmoniosa e equilibrada que permite a convivência construtiva e ativa entre indivíduos e, destes, com o meio social e ecológico. O Comportamento Reativo, nos seus diferentes graus de intensidade, representam a conduta humana reativa, isto é, inadaptada, insatisfeita e não-equilibrada em relação ao meio interno (psiquismo), ao externo (família, sociedade, cultura) e a base que os sustentam (meio ecológico).
O comportamento humano não deve ser considerado só do ponto de vista estático, ou seja, com base apenas nos fenômenos intrapsíquicos, genéticos, enfim, de natureza estritamente individual.
A idéia de tentar conceber um mundo perfeito, absoluto, acabado e centrado no individual é a própria negação da evolução vital; é negar a convivência das pessoas a partir de suas próprias diferenças individuais. É a loucura do isolamento e da solidão, que não é desejada por ninguém. Um homem não vive só, uma família não existe só. Ninguém suporta ficar só, por que a vida é gerada de duas pessoas e se espraia inevitavelmente nos grupos sociais, com seus modelos próprios.
Por que as pessoas, muitas vezes, se sentem solitárias dentro de suas famílias e no meio da multidão? Estar rodeado de outros indivíduos e sentir-se solitário não seria um fenômeno relacionado ao mundo interno (psiquismo) e ao mundo externo (família, sociedade, cultura)? Como lidar com esse aparente paradoxo?
O homem civilizado aprendeu a ser classificatório e individualista. Aprendeu a rotular e separar seus rótulos em diferentes gavetas; e essas gavetas precisam permanecer isoladas. Desaprendeu as lições da vida em comum e aprendeu a organizar seu psiquismo através de processos intelectuais com base na razão. Sua emoção, solidariedade e intuição foram engavetadas numa outra estante do inconsciente e pouco valorizadas, por não possuírem utilidade prática e imediata no mundo civilizado.
Agora é possível compreender por que foram criados os diagnósticos psiquiátricos, os remédios e as instituições, projetadas para guardar e prender a loucura humana e isolá-la do mundo produtivo. O homem atual não consegue conviver com suas fraquezas e erros, próprios da sua natureza. Ele tenta projetar-se de forma megalômana, numa imagem de perfeição narcisista, auto-suficiente, sapiente e onipotente. Ele tenta negar sua natural animalidade e pequenez diante de si próprio e de outras formas de vida existente na Terra. Ele se esforça para esquecer que, um dia, há pouco tempo atrás, pertenceu a uma sociedade que atualmente chama de primitiva. O homem moderno empresta ao termo "primitivo" uma conotação pejorativa e inferior, mas não consegue organizar-se e construir um modelo cultural equilibrado e sem problemas, que já possuiu, quando ainda era um "ser" naturalmente primitivo.
Quando conversamos com pessoas fisicamente saudáveis, com razoável formação intelectual, boas condições materiais, e que se queixam de solidão dentro de suas famílias e na sociedade, podemos pensar: Será que essa pessoa está sentindo saudade de alguma coisa importante para ela? Depois de ter adquirido e acumulado todas as materialidades necessárias à sua existência, o que ela deseja obter mais, para não se sentir tão solitária?
Enquanto não possuirmos provas concretas em contrário, podemos continuar acreditando que a aquisição de bens materiais, prestígio e poder não são suficientes para aplacar os sonhos, desejos e ânsias do espírito humano. Talvez seja melhor acreditar que a existência de um "modelo cultural" relativamente estável e equilibrado seja uma necessidade básica, fundamental para a convivência em "estado de riqueza", onde competição e ganância possam estar substituídas pelo amor e pela crença na solidariedade dos grupos e das sociedades humanas. Não acreditar nisso é descobrir - o que atualmente vemos - o segredo da existência da miséria, da fome e da loucura entre nós, os civilizados. O grande objetivo, a síntese e o foco que iluminam o sentido da Vida reside na forma pela qual os homens se organizam e organizam seus sentimentos, princípios e valores, para viverem e conviverem e grupos.
A "perda cultural" significa para o homem civilizado o que a "despersonalização" significa para o esquizofrênico - a desorganização e o estado de confusão. O esquizofrênico não é o um "doente mental", uma pessoa que nasceu com "defeito de fábrica"; ele apenas expressa, com seu comportamento, uma denúncia pessoal, um protesto contra a desorganização do modelo cultural e familiar, no qual não mais deseja conviver sem reagir. Ele apenas corta contato provisoriamente com o grupo familiar e social que provocou a desestruturação da sua personalidade. Seu "comportamento reativo" cobra da sociedade e da família mudanças adequadas à sua reinserção na vida sóciofamiliar. Ele é o ponto sensível, a linha que se rompe primeiro para mostrar o caos da convivência.
As fobias são comportamentos reativos simbólicos, que se projetam para o exterior e deslocam seu verdadeiro significado, identificando em insetos, objetos e situações, causas que possam justificar os medos e temores pessoais. Estão sempre camuflando as verdadeiras crises reativas do psiquismo. Essas reações podem estar denunciando, através desses códigos simbólicos, as insatisfações, o medo e a insegurança pela própria vida. que seus portadores experimentam. Não ouvimos falar de fobias entre as sociedades naturais. Seus medos são claros e organizados ritualmente. São identificados nos fenômenos naturais, situações reais de perigo e abstrações de caráter religioso, perfeitamente compreensíveis. Não vemos, entre eles, moléstias nervosas ou mentais. Não é freqüente possuírem homicidas, suicidas, prostitutas, drogados, assaltantes e mendigos. Eles sabem, por intuição, que um modelo cultural bem organizado pode evitar tudo isso.
O Comportamento Ativo é sinônimo de: sintonia, adequação e integração estável entre indivíduo e grupo social. A ação individual se comporta dentro do modelo para colaborar com seu equilíbrio e aprende a conviver bem com ele. O oposto disso resultaria no Comportamento Reativo As alterações do psiquismo e, por conseqüência, do comportamento humano, se movimentam dinamicamente na direção dos desvios e das anomalias do meio circundante, onde os indivíduos nascem, crescem, convivem aprendendo, e morrem.
Compreendemos bem o porquê das tentativas e das buscas incessantes do homem civilizado para manter o Estado e suas instituições em equilíbrio. O dilema do civilizado está encravado no "desejo de parasitar" o modelo em que vive sem matá-lo completamente. Enfraquecendo-o apenas. Seu desejo de depender do Estado e dos outros indivíduos, para deles retirar vantagens, o aprisiona na condição de parasita e o faz perder sua autonomia e dignidade. Essa angústia reside no fato de perceber que ninguém vive sem modelo grupal. Ninguém vive só.
Produzir sempre muitas leis, muitas religiões, muitas tecnologias e muitos códigos morais dá para desconfiar. Alguma coisa não vai bem conosco. É preciso repensar nosso modelo e nossas regras de convivência. Ninguém deve se orgulhar de pertencer a essa "civilização", mas deve preocupar-se com seu futuro, pois, nela, vivemos e convivemos com nossa família, amigos, conhecidos e desconhecidos. Não devemos reagir contra ela. Devemos agir, colaborando sempre, para uma mudança na base qualitativa do convívio humano. Todos amam a Vida, pois é nela que circula o maravilhoso fenômeno da relação social.
Por causa da "perda cultural", situação complexa sobre a qual o homem moderno não tem acesso e tampouco parece interessar-se, ousamos, certa vez, pensar. Talvez uma idéia inovadora, talvez uma utopia. Sonhando, fomos construindo o mito da integração de um novo mundo. Um mundo onde se conseguisse compor e juntar as partes boas e sábias dos povos primitivos e as partes boas e sábias do mundo civilizado. Daí poderia surgir a base de um "novo modelo cultural" que permitisse resgatar os desvios provocados pelo processo civilizatório e emprestar novas ferramentas para a convivência pacífica entre indivíduos.
É possível falar da idéia - mas não dos projetos - para essa reconstrução, pois eles ainda circulam nas cabeças cheias de esperanças de muitos homens, sem soluções definitivas. Sonho do presente ou realidade do futuro? Não sabemos. Mas podemos acreditar em coisas, como: a evolução cíclica do universo e a capacidade criadora do homem. Pensando bem, estamos a tão pouco tempo na Terra, que acabamos não tendo certeza em que fase do desenvolvimento nos encontramos. Se for preciso recomeçar tudo de novo, aqui estamos para oferecer voluntariamente nossa ajuda nesse mutirão.
A Civilização não pode continuar esmagando o homem. O Estado Moderno, com suas instituições, não pode manter a cidadania humana amordaçada e transformada em simples figura de contribuinte passivo. Não somos peças mecânicas de u'a máquina produtora de bens materiais e nem consumidores dependentes de seus bens. Temos consciência e bom-senso para retomar nossa identidade e reter o poder, que cabe a cada cidadão, de decidir qual o melhor caminho para o futuro.
A instituição familiar não deve reprimir o comportamento reativo dos seus membros, mas refletir sobre suas verdadeiras causas. Deve aprender a lidar com a loucura, absorve-la e compreendê-la, para conseguir libertar sua voz. A família é uma instituição natural e indestrutível. Precisa juntar-se em grupos maiores e organizados, para exigir o poder e o respeito que merece e a que tem direito.
Nenhum Estado Moderno resgatará para o indivíduo os direitos da cidadania e da liberdade individual, porque o seu papel essencial é o de restringi-los. O Estado os deseja, os controla e sempre seu oporá a essa devolução. Os homens que representam o Estado Nacional, na sua maioria, nunca desejarão transferir o poder, para não perderem seus privilégios. Nenhuma ideologia política deverá ser seguida porque seus discípulos, sempre as utilizam como forma de controle do poder político centralizado. Nenhuma ideologia política, econômica ou religiosa contém dentro de si a essência da liberdade, pois, a liberdade não é feita de palavras ou de idéias, ela existe dentro de cada cidadão que queira falar, pensar e agir livremente. Todas as ideologias e formas de governos experimentadas até hoje pelo homem civilizado não conseguiram mudar o panorama do mundo atual.
Haverá de chegar o dia em que assistiremos à morte do Estado Moderno. A partir desse dia se iniciará um processo de reconstrução social, onde cada cidadão se tornará responsável, com direitos e deveres, para conviver em um novo modelo cultural. Veremos então o desaparecimento gradual das desigualdades, da violência, da fome, da solidão e da loucura. Quando esse dia chegar seria bom que ainda vivêssemos para assistir, de pé, o início dessa nova era para a humanidade.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
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