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Ao lado do hospital funcionava um ambulatório. Era um anexo do hospital, de construção mais recente, que atendia as pessoas carentes do bairro. O atendimento era dirigido para portadores de disritmia cerebral, desde epilepsias mais graves até as disfunções leves do ritmo cerebral.
O coordenador do ambulatório era um médico do hospital que se dizia pertencer à ala progressista, mas se comportava, na maioria das vezes, como os médicos da ala conservadora. Era uma personalidade instável que fluía e refluía de acordo com os humores políticos da direção ou com situações ligadas aos seus próprios interesses pessoais. De porte franzino e gestos aristocráticos, quase não se encontrava presente e deixava o funcionamento diário à mercê dos residentes e dos auxiliares de enfermagem que lá trabalhavam. Só tomava alguma atitude quando, por falta de medicamentos ou por motivo de grande importância, era insistentemente solicitado. Estava sempre ausente e não participava da rotina do ambulatório.
Em certa ocasião o estoque de medicamentos utilizados para controle das disritmias se esgotou. Duas semanas antes havia sido avisado várias vezes para dar solução ao problema. Nenhuma providência foi tomada. A ordem, dada por telefone, era para ser usada medicação tranqüilizante em substituição aos anticonvulsivantes normalmente empregados, para “contornar” o problema até que fosse providenciada nova remessa de medicação específica. Os residentes não concordaram com a decisão e foi marcada uma reunião com todos os funcionários.
A conclusão final da reunião foi a de que a ordem não deveria ser acatada. Além de antiética e desonesta, iria refletir-se negativamente na evolução dos casos que estavam sob controle; seria um completo absurdo aceitá-la. A posição a ser seguida seria, depois de esgotada a medicação existente, interromper os controles. Os pacientes teriam que ser avisados com antecedência sobre a possibilidade da falta de medicação nas semanas seguintes. Todos concordaram que os pacientes não poderiam ser enganados e teriam que ser informados sobre a crise pela qual o ambulatório estava passando, uma completa desorganização. Comunicamos ao médico coordenador nossa posição e não recebemos qualquer resposta sobre o assunto.
Contada a medicação que ainda restava foi fixado um dia para o início da greve. Enquanto havia medicação, pacientes e familiares estavam sendo avisados e as providências para iniciar a greve iam sendo discutidas. No dia fixado nenhum residente compareceu ao ambulatório e em várias paredes podiam ser lidos cartazes que explicavam os motivos da interrupção. Os funcionários do ambulatório aderiram ao movimento, mas ficaram cumprindo seus horários de rotina; ficavam informando as pessoas sobre os motivos do movimento.
O médico coordenador tomou conhecimento do fato e acionou a direção do hospital para conter a greve. Já haviam se passado três dias que o ambulatório não funcionava quando os residentes foram convocados para uma reunião da direção do hospital. Lá estavam frente a frente o diretor, o coordenador e os residentes.
Passava das dezesseis horas quando a reunião iniciou. Vimos o coordenador branquela, baixinho e com a cara fechada, afundado em sua poltrona, em frente à mesa do diretor. Sustentava um ar de superioridade e não se dignou em olhar para os residentes. O diretor pediu que todos sentassem e deu inicio a conversa. O coordenador começou falando à maneira de um respeitável magistrado, com uma visível e afetada serenidade. Os residentes foram metralhados, bombardeados e esquartejados pelo coordenador; suas críticas tinham um objetivo arquitetado, isto é, eliminar os residentes do quadro de funcionários do hospital.
O diretor ouvia atento e balançava a cabeça sinalizando estar concentrado na exposição. Os residentes olhavam para a figura insignificante do coordenador e se esforçavam para conter a irritação. Quase uma hora havia se passado e, finalmente, o coordenador encerrou seu discurso. O diretor virou o rosto, compôs seu pescoço cansado e falou para os residentes: “O que vocês tem a dizer?”
A fala seguinte coube aos residentes que explicaram detalhadamente os motivos da paralisação. Foram com freqüência interrompidos pelos apartes do coordenador. Estavam ali para dizer que eram estudantes e que, nessa condição, queriam aprender direito a profissão de médico. Não estavam no hospital para aprender a enganar pacientes e familiares, leigos na arte médica. Não aceitavam uma aprendizagem onde a ética e o conhecimento científico pudessem estar subordinados às irresponsabilidades e deficiências da administração do ambulatório. Finalizaram afirmando que estavam decididos a sair do ambulatório e do hospital se fossem obrigados a se submeter a erros e anomalias da instituição. Eram estudantes solteiros e não tinham nada a perder. Tentariam outra instituição que lhes pudesse oferecer um estágio de melhor qualidade. Mas se procurados pela mídia, falariam sem constrangimento sobre as ocorrências que originaram a greve.
Em certa altura o coordenador chamou ironicamente os estudantes de “os cinco mosquiteiros da doença mental”. Os residentes responderam dizendo que conheciam bem os “camaleões” do hospital, profissionais que se fantasiavam de progressistas para tirar proveito da reorganização profunda que estava acontecendo na instituição. Usaram todo o seu poder de fogo porque sabiam como seria difícil substituir subitamente cinco residentes com razoável experiência por candidatos novos e inexperientes para lidar com o complexo atendimento do hospital e do ambulatório.
Essa estratégia funcionou. O diretor contemporizou dizendo que os pacientes nada tinham a ver com as nossas diferenças internas e que todos deveriam voltar ao trabalho. O coordenador resolveria a questão dos remédios de forma adequada e os residentes voltariam a atender normalmente. A reunião terminou. Os residentes se retiraram e o coordenador continuou afundado em sua poltrona. Estava irritado e desmoralizado por não ter conseguido atingir seu objetivo.
No dia seguinte, pela manhã, fomos informados que uma grande quantidade de medicação anticonvulsivante havia chegado ao ambulatório. Na parte da tarde o funcionamento se normalizou para atender uma grande multidão que se espremia a espera de atendimento. Era uma sexta-feira. Nesse dia o trabalho dos residentes só terminou ao anoitecer. Funcionários e residentes, após o expediente, foram para um bar da esquina comemorar a vitória da greve. Entre os cascos de cerveja vazios e os restos de tira-gostos jazia a figura franzina e insignificante do coordenador – a personagem mais comentada da festa.
Naquele tempo estávamos aprendendo que as distorções nas instituições podem corromper os fundamentos básicos da cidadania. Que os profissionais, independentemente dos seus títulos e funções de chefia, podem prostituir suas consciências para não perder seus empregos ou para submeter-se a interesses de terceiros e poder garantir seus privilégios.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
O homem dos sacos
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Havia um paciente no hospital que andava sempre com um saco. Dentro do saco muitos objetos poderiam ser encontrados: pedras, pedaços de madeira, folhas secas, pequenas caixas vazias, etc. Tratava esses objetos como se fossem peças muito valiosas. Seu discurso era o de um magnata, falava que possuía muitas terras e gado, minas de ouro e de pedras preciosas, prédios e navios, aviões e lanchas. Era um homem podre de rico. Vivia solicitando licenças para sair do hospital e cuidar dos seus negócios lá fora. Pedia para todos que o ajudassem a fazer petições, requerimentos e cartas para a direção do hospital, pois estava tendo muitos prejuízos. Seus funcionários o estavam roubando e dilapidando seus bens na sua ausência.
Ficava horas contando os seus papéis velhos e gravetos e os escondia rapidamente quando alguém se aproximava. Prometia grandes somas em dinheiro para os enfermeiros se eles conseguissem a sua “libertação”. Queria, porém, um documento com assinatura do diretor e de todos os médicos do hospital para que pudesse legalizar lá fora a sua vida e seus bens.
Certa vez fugiu do hospital aproveitando-se da distração dos funcionários num dia de festa. Estavam todos no grande quintal que ficava atrás dos prédios, quando ele pulou o muro com o saco nas costas. Ficou oito dias na rua. Regressou no nono dia contando várias estórias. Ao invés de um saco, já possuía dois. O maior, que conseguira na rua, estava cheio de objetos catados pelas esquinas. Disse que não poderia misturar o conteúdo dos sacos porque esses conteúdos pertenciam a dois mundos diferentes: o da rua e o do hospital. Se o fizesse - dizia - poderia desorganizar sua cabeça, que já sabia de cor o que havia e quanto havia dentro de cada um.
Ele era um paciente solitário, gostava apenas da companhia dos seus sacos. Não participava de atividades grupais e estava sempre muito desconfiado. Para melhorar nosso contato com ele passamos a presenteá-lo com vários objetos sem importância como: caixas de fósforos e de chicletes vazias, pedaços de papel de chocolate, prospectos de remédios com figuras coloridas, etc. Ele os recebia para depois selecioná-los. Guardava no saco os que eram aprovados por ele e jogava fora os restantes. Um dia perguntamos a ele por que selecionava os objetos. Respondeu: - “Para separar o joio do trigo”. Explicou que as pessoas e os objetos são divididos em “bons” e “maus”; os bons devem ser guardados e os maus jogados fora.
Ele era um dos pacientes que nunca recebia visitas dos familiares. Era solteiro. Perguntamos sobre sua família. Ficou calado e abriu o saco grande, tirou de lá vários papéis e pôs-se a contá-los na nossa frente. Perguntamos por que resolveu contar os papéis na nossa frente, já que não gostava de fazer isso na frente das pessoas: - “Você é muito curioso, mas é uma pessoa boa” - respondeu. Despediu-se em seguida e saiu pela porta do consultório carregando os dois sacos. Passamos alguns meses conversando com ele sem tocar no assunto relativo à sua família. Já éramos amigos e tínhamos até permissão de retirar alguns objetos de ambos os sacos, um de cada vez, para examiná-los com as nossas próprias mãos. Fizemos vários requerimentos solicitando a sua “libertação” do hospital. Nenhum resultado concreto.
Em uma das nossas conversas tivemos a feliz idéia de associar sua “libertação” à sua família. Falamos que só se sentiria livre para sair do hospital quando o hospital deixasse de significar para ele uma família. Teria que tentar uma reaproximação com a sua verdadeira família para poder livrar-se do hospital.
Passou três semanas sem nos procurar, mas, um belo dia, pediu para termos “uma conversa em particular”. Não queria entrar no consultório para conversarmos porque acreditava que “até as paredes têm ouvidos”. Fomos conversar debaixo de uma mangueira velha que havia no fundo do quintal do hospital. Puxamos dois tijolos e sentamos. Confortavelmente instalados nos tijolos iniciamos a nossa conversa. Com os sacos perto de si, começou a falar sobre sua família.
Morava no interior e sua família possuía uma fazenda com plantações e gado. Possuíam um barco com motor a óleo diesel e um pequeno estabelecimento comercial. Eram oito irmãos e havia muitas brigas quando se tratava de repartir os lucros ou administrar as atividades. Tinha vindo estudar na capital aos doze anos de idade e aos quatorze começou a sentir uma certa confusão na cabeça. Parou de estudar e de receber ajuda dos familiares. Morava com uma tia na capital e esta, sem receber apoio financeiro da sua família, resolveu interná-lo no hospital. Atualmente tinha quarenta e oito anos de idade. Sua primeira internação se dera quando ainda tinha vinte anos.
Percebíamos pela primeira vez que ele estava lúcido e falava a verdade. Naquela conversa o seu delírio de grandeza aparecia apenas poucas vezes; logo em seguida retomava o fio da realidade e continuava falando de forma coerente e compreensível. Durante todo o tempo não olhou uma só vez para os sacos. Terminada a conversa levantamos dos tijolos e fomos andando vagarosamente em direção ao prédio do hospital. Havíamos andado poucos metros quando ele, de repente, se voltou e saiu correndo para buscar os sacos que havia esquecido perto dos tijolos. Era a primeira vez que havia ficado tão longe dos sacos.
Nos dirigimos diretamente para a sala de arquivos do hospital. Examinamos e checamos seus prontuários velhos e o atual. Foi possível fazer a reconstituição da sua vida hospitalar e familiar naquela confusão de informações escritas nos papéis. O que nos falara estava escrito nos prontuários e a sua estória começou a ganhar um sentido diferente e real. Naquela tarde, na reunião de acompanhamento de casos, falamos sobre as descobertas que haviam sido feitas. Residentes, assistentes sociais, enfermeiros e terapeutas ocupacionais foram mobilizados para ativar o contato com familiares, estimular contatos grupais, projetar um plano de trabalho para a sua futura saída do hospital. O homem dos sacos agora já não estava só com seus sacos, possuía uma retaguarda disposta a entender o seu dilema com eles. Na verdade eram muitos esses dilemas.
Era conhecido como Papai Noel. Já havia brigado muito com outros pacientes por causa desse apelido. Agredia todos os que ousassem aproximar-se para abrir seus sacos.
A primeira providência tomada pela equipe foi a de resgatar o seu verdadeiro nome. Chamava-se José. Agora todos passariam a chamá-lo pelo seu nome. As assistentes sociais descobriram o endereço da sua tia e de mais três irmãos que residiam na capital.
As reuniões com os familiares tinham o objetivo de restabelecer os contatos e mostrar que, com a ajuda deles, José poderia recuperar a sua posição normal de membro da família. As resistências foram muitas e intensas, mas as esperanças continuavam.
Nessa época compreendemos como era falso o mito da loucura e do “louco varrido”. O psiquismo humano, analogamente ao sistema imunológico do organismo, possui poderosas defesas para preservar o equilíbrio mental. O comportamento “anormal” mantém preservada sua coerência e seu lado saudável para poder suportar os desequilíbrios da família e da sociedade.
Explicando os códigos:
O enigma de José estava contido simbolicamente na sua relação com seus sacos. O saco pequeno, que guardava objetos adquiridos dentro do hospital, representava seus núcleos afetivos hospitalares (grupo afetivo hospitalar) onde passara grande parte da sua vida. Era pequeno porque não lhe interessava muito que crescesse. O saco grande representava seus núcleos afetivos sociofamiliares (família e sociedade) para onde desejava retornar. Era a sua “libertação”, tantas vezes solicitada por requerimentos e cartas.
Seu delírio de riqueza, representado pelo ouro, dinheiro e propriedades, simbolizava o seu abandono pela família, que o deixava mendigo desse afeto tão importante e valioso e que era recolhido pelo chão em forma de objetos, convencionalmente de pouco valor. Denunciava, ao mesmo tempo, a ambição materialista existente em suas família e na sociedade que conhecia. Como não possuía (naquela época só tinha o saco hospitalar) uma forma concreta e palpável de realizar seu desejo, fugiu do hospital para adquiri-lo e o fez maior, depositando-o num saco bem grande. Sua fuga não foi uma indisciplina, mas, tão somente, o resgate material do seu sonho: uma grande vontade de reaproximação sócio-familiar, isto é, um desejo de reintegrar-se à vida real.
Contar e recontar os objetos de cada saco, era manter-se em contato permanente com os dois núcleos afetivos que possuía. Mantê-los sob severa vigilância significava evitar mais um grande roubo afetivo na história da sua vida. Mantê-los separados serviria para distinguir duas histórias completamente diferentes e opostas entre si. Misturar o conteúdo dos sacos seria misturar seus conteúdos diferentes e desorganizar sua cabeça, a sua vida afetiva. Ninguém poderia intrometer-se para não desordenar o que havia conseguido ordenar com tanto trabalho e durante tanto tempo.
Só quem conseguisse, como ele, perceber essas diferenças poderia aproximar-se dos sacos. Naqueles sacos estavam guardadas as únicas coisas de valor que possuía na vida. Os objetos que não serviam mais para os outros, representavam restos de afeto que ele cuidadosamente coletava e selecionava para depois juntar seus pedaços e incorporá-los, enriquecendo o seu mundo pobre de afeto. Selecionar seria o mesmo que separar as boas das más experiências afetivas pelas quais havia passado.
José havia ensacado a sua vida afetiva durante muitos anos para não se sentir só e para preservar sua identidade, sua memória e suas emoções. Conhecia o conteúdo de cada um dos sacos como a palma de sua mão e os mantinha separados para não perder a sua sanidade mental. Evitava os grupos porque o seu grupo original (sua família) o tinha expulsado precocemente do seu convívio e o havia esquecido. Seu grupo confiável eram os sacos, resumo valioso e silencioso de toda a sua história. Como confiar em grupos, se os grupos o rejeitavam e o consideravam como um estranho, um louco?
Nossa relação de amizade estreitava-se cada vez mais e nossas conversas já eram mais longas e profundas. Já eram, quase todas, feitas dentro do consultório. Fomos apresentando gradativamente os membros da equipe para o José. Após certo tempo já não conversávamos mais sozinhos, havia um grupo que conversava, do qual José era membro participante. No princípio falava pouco, mas com o tempo foi tomando a palavra e se incorporando ao trabalho da equipe. José estava experimentando as vantagens de participar do seu primeiro grupo confiável. Denominamos esse grupo de “Grupo Trabalho e Esperança”.
Certa vez ele nos confidenciou que achava que dessa vez iria conseguir sua “‘libertação”. Aquelas pessoas - segundo ele - não estavam mentindo, pois já conseguira algumas visitas dos irmãos, que lhe trouxeram presentes e dinheiro. Suas roupas já não eram tão sujas como antigamente e os banhos não tão insuportáveis assim. Mas os sacos continuavam perto dele.
Nós compreendíamos cada vez mais a solidão de José e, ao mesmo tempo, o nosso despreparo para lidar com casos semelhantes ao dele. Achamos mesmo que as pessoas olham para os “loucos” da mesma forma como olham para as crianças e adolescentes: como se fossem sacos grandes ou pequenos, completamente vazios, ou melhor, cheios de coisas sem valor por conterem dentro de si quinquilharias que necessitam ser selecionadas pelos conselhos e normas “educativas” dos adultos. Que precisam de muita proteção por não possuírem conteúdo e objetivos próprios. Sentem-se donas desses sacos e os carregam de um lado para o outro, segundo seus próprios sonhos e desejos, sem se importarem com os seus próprios conteúdos de valor. Seriam como os sacos de José: simples objetos, cuja função seria a de proteger seu dono com suas presenças. Protegê-lo de sua insegurança e solidão.
José começou a participar de outros grupos de pacientes e ganhava mais confiança em si mesmo. Fazia anos que não tomava remédios no hospital. Era um esquecido hospitalar desde o tempo em que era conhecido como Papai Noel. A partir das nossas primeiras conversas, a equipe havia resolvido que ele não tomaria remédios como parte do seu tratamento. Nunca lhe foi oferecido nem nunca pediu. Continuou sempre assim: sem remédios. Era um antigo membro do grupo da abandonoterapia (apelido que dávamos aos esquecidos), que agora já possuía identidade e se chamava José ; membro com voz e voto dentro do grupo “Trabalho e Esperança”, escolhido e eleito pela equipe do hospital para ser o cidadão de sua própria libertação.
José pediu-nos que guardássemos os seus sacos na sala de reuniões, onde havia um velho armário cheio de desenhos e objetos confeccionados por pacientes da terapia ocupacional. Perguntou se era um lugar seguro e quem guardava as chaves desse armário. Falamos que era seguro e que as chaves ficavam com o nosso grupo. Perguntamos se ele queria ter uma chave só para ele. Aceitou, e a nova chave foi confeccionada e lhe foi entregue. Andava com ela pendurada no pescoço e dormia com ela. Não tinha mais o trabalho de carregar os dois sacos porque os havia trocado provisoriamente por uma chave, símbolo da sua confiança em nosso grupo.
Com o passar do tempo parou de coletar objetos do chão e entrou para um grupo do Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização) que havia sido instalado no hospital para pacientes que queriam aprender a ler e escrever. Seus delírios eram pouco freqüentes e só reapareciam quando retirava seus sacos do armário para tê-los junto a si, e desapareciam quando nos confiava a guarda dos mesmos.
Ensinamos a ele que não revidasse quando alguém, relembrando os velhos tempos, o chamasse de Papai Noel. Para nós e para quase todos ele era o novo cidadão chamado José e deveria ser assim para sempre.
Certo dia seus parentes vieram buscá-lo para que passasse o fim de semana com eles. Concordou em ir e queria levar os sacos, mas o convencemos de que ele, como o novo José, deveria levar apenas a chave do armário. Ele aceitou e foi embora com os parentes. Voltou na segunda feira pela manhã com um terceiro saco. Na verdade não era um saco e sim uma sacola. Estava cheia de objetos diferentes dos outros que estavam no armário. Continha escova, creme dental, roupas, sapato, sandálias, cadernos, biscoitos e um pente novo.
Ele estava alegre, mas conversava pouco com os parentes. Aproveitamos a presença deles e fizemos uma reunião conjunta do grupo “Trabalho e Esperança”.
O grupo ia ficando maior com o passar do tempo e já mostrava alguns resultados. Na reunião, os irmãos queriam que ele saísse do hospital e retornasse para a casa de um deles. O José ficou reticente e acabamos concordando que sua saída teria que ser decidida por ele e que deveria aproveitar e concluir seu curso do Mobral.
Já sabíamos muito a respeito da sua vida familiar. Seus irmãos contaram muitas estórias que não estavam escritas nos prontuários velhos a nem nos novos. Parte de sua família morava na capital e possuía boa situação financeira. O pai de José havia falecido há dez anos, mas sua mãe ainda morava na mesma fazenda com os filhos mais novos.
Numa outra reunião do grupo José pediu que guardássemos sua sacola nova, pois temia que os outros pacientes roubassem seus objetos, fato bastante freqüente entre eles. Queria ficar com alguns objetos de uso pessoal e com a chave do armário. Pediu também que queimássemos os outros dois sacos antigos. Respondemos que os sacos antigos ficariam guardados até um ano após sua saída do hospital. Gostaríamos que ele próprio, após um ano e junto com a sua família, voltasse a nos visitar e junto conosco, procedesse ao ritual de incineração dos velhos sacos. Aceitou a idéia e voltou para a sua aula do Mobral que já havia iniciado há cinco minutos atrás.
O novo José já não era o mesmo homem dos sacos e a nossa equipe já não era a mesma dos velhos tempos. Havíamos aprendido, com ele e com outros pacientes, formas novas de preencher nossos “sacos intelectuais” com conteúdos de muito valor. Nós, José e os outros pacientes estávamos melhorando, mesmo estando todos, internados no mesmo hospício.
Concluído o curso do Mobral ele já escrevia uns bilhetes para os seus familiares. As visitas já eram semanais e as saídas do hospital se prolongavam por uma semana a até por um mês. Estava na hora de José sair.
Na nossa última reunião do grupo “Trabalho e Esperança” fizemos uma brincadeira com José: redigimos uma “Carta de Libertação” concedendo ao Sr. José Oliveira da Silva, os títulos de Cidadão Livre, Membro Honorário da Equipe a de senhor de todos os bens e riquezas que ele conseguisse adquirir dali por diante com o seu próprio esforço. Essa Carta continha também todas as aquisições que fizera desde que passara a se constituir um membro integrante do nosso grupo até aquele dia. Só omitimos na Carta a existência dos dois sacos velhos que ainda jaziam no armário, símbolos de sua loucura, e ao mesmo tempo, da manutenção da sua sanidade. Presenças concretas do seu esforço solitário em manter seu próprio equilíbrio, sem a ajuda de ninguém, durante muitos anos.
José saiu do hospital numa sexta-feira de tarde acompanhado por sua sacola nova, pelos parentes, pelos membros do Grupo Trabalho e Esperança e por alguns pacientes que haviam se tornado seus amigos nos últimos tempos. Sentia-se mais confiante e, na porta de entrada do hospital, se despediu de todos, entrou no carro com seus parentes e desapareceu entre os acenos dos que ficaram.
Lembramos que, quando recebeu sua “Carta de Libertação”, percebeu, com um sorriso, a assinatura de quase todos os médicos do hospital, funcionários e pacientes que o conheciam bem. Mais parecia um abaixo assinado. Já sabia ler e escrever. Apôs seu nome na última linha, dobrou o papel e o colocou no bolso.
O Grupo Trabalho e Esperança já não existia mais e se transformou, naqueles dias, num grande saco vazio com a saída do José.
Ele nunca mais retornou para aquele hospital, não voltou para queimar os sacos. O que foi feito dos sacos velhos nem nós sabemos responder. Talvez, esquecidos como tantas outras quinquilharias do hospital, devem ter recebido o destino do lixo ou queimados sem a nossa presença, numa grande fogueira de São João. O que, aliás, era muito comum acontecer com os papéis velhos.
Havia um paciente no hospital que andava sempre com um saco. Dentro do saco muitos objetos poderiam ser encontrados: pedras, pedaços de madeira, folhas secas, pequenas caixas vazias, etc. Tratava esses objetos como se fossem peças muito valiosas. Seu discurso era o de um magnata, falava que possuía muitas terras e gado, minas de ouro e de pedras preciosas, prédios e navios, aviões e lanchas. Era um homem podre de rico. Vivia solicitando licenças para sair do hospital e cuidar dos seus negócios lá fora. Pedia para todos que o ajudassem a fazer petições, requerimentos e cartas para a direção do hospital, pois estava tendo muitos prejuízos. Seus funcionários o estavam roubando e dilapidando seus bens na sua ausência.
Ficava horas contando os seus papéis velhos e gravetos e os escondia rapidamente quando alguém se aproximava. Prometia grandes somas em dinheiro para os enfermeiros se eles conseguissem a sua “libertação”. Queria, porém, um documento com assinatura do diretor e de todos os médicos do hospital para que pudesse legalizar lá fora a sua vida e seus bens.
Certa vez fugiu do hospital aproveitando-se da distração dos funcionários num dia de festa. Estavam todos no grande quintal que ficava atrás dos prédios, quando ele pulou o muro com o saco nas costas. Ficou oito dias na rua. Regressou no nono dia contando várias estórias. Ao invés de um saco, já possuía dois. O maior, que conseguira na rua, estava cheio de objetos catados pelas esquinas. Disse que não poderia misturar o conteúdo dos sacos porque esses conteúdos pertenciam a dois mundos diferentes: o da rua e o do hospital. Se o fizesse - dizia - poderia desorganizar sua cabeça, que já sabia de cor o que havia e quanto havia dentro de cada um.
Ele era um paciente solitário, gostava apenas da companhia dos seus sacos. Não participava de atividades grupais e estava sempre muito desconfiado. Para melhorar nosso contato com ele passamos a presenteá-lo com vários objetos sem importância como: caixas de fósforos e de chicletes vazias, pedaços de papel de chocolate, prospectos de remédios com figuras coloridas, etc. Ele os recebia para depois selecioná-los. Guardava no saco os que eram aprovados por ele e jogava fora os restantes. Um dia perguntamos a ele por que selecionava os objetos. Respondeu: - “Para separar o joio do trigo”. Explicou que as pessoas e os objetos são divididos em “bons” e “maus”; os bons devem ser guardados e os maus jogados fora.
Ele era um dos pacientes que nunca recebia visitas dos familiares. Era solteiro. Perguntamos sobre sua família. Ficou calado e abriu o saco grande, tirou de lá vários papéis e pôs-se a contá-los na nossa frente. Perguntamos por que resolveu contar os papéis na nossa frente, já que não gostava de fazer isso na frente das pessoas: - “Você é muito curioso, mas é uma pessoa boa” - respondeu. Despediu-se em seguida e saiu pela porta do consultório carregando os dois sacos. Passamos alguns meses conversando com ele sem tocar no assunto relativo à sua família. Já éramos amigos e tínhamos até permissão de retirar alguns objetos de ambos os sacos, um de cada vez, para examiná-los com as nossas próprias mãos. Fizemos vários requerimentos solicitando a sua “libertação” do hospital. Nenhum resultado concreto.
Em uma das nossas conversas tivemos a feliz idéia de associar sua “libertação” à sua família. Falamos que só se sentiria livre para sair do hospital quando o hospital deixasse de significar para ele uma família. Teria que tentar uma reaproximação com a sua verdadeira família para poder livrar-se do hospital.
Passou três semanas sem nos procurar, mas, um belo dia, pediu para termos “uma conversa em particular”. Não queria entrar no consultório para conversarmos porque acreditava que “até as paredes têm ouvidos”. Fomos conversar debaixo de uma mangueira velha que havia no fundo do quintal do hospital. Puxamos dois tijolos e sentamos. Confortavelmente instalados nos tijolos iniciamos a nossa conversa. Com os sacos perto de si, começou a falar sobre sua família.
Morava no interior e sua família possuía uma fazenda com plantações e gado. Possuíam um barco com motor a óleo diesel e um pequeno estabelecimento comercial. Eram oito irmãos e havia muitas brigas quando se tratava de repartir os lucros ou administrar as atividades. Tinha vindo estudar na capital aos doze anos de idade e aos quatorze começou a sentir uma certa confusão na cabeça. Parou de estudar e de receber ajuda dos familiares. Morava com uma tia na capital e esta, sem receber apoio financeiro da sua família, resolveu interná-lo no hospital. Atualmente tinha quarenta e oito anos de idade. Sua primeira internação se dera quando ainda tinha vinte anos.
Percebíamos pela primeira vez que ele estava lúcido e falava a verdade. Naquela conversa o seu delírio de grandeza aparecia apenas poucas vezes; logo em seguida retomava o fio da realidade e continuava falando de forma coerente e compreensível. Durante todo o tempo não olhou uma só vez para os sacos. Terminada a conversa levantamos dos tijolos e fomos andando vagarosamente em direção ao prédio do hospital. Havíamos andado poucos metros quando ele, de repente, se voltou e saiu correndo para buscar os sacos que havia esquecido perto dos tijolos. Era a primeira vez que havia ficado tão longe dos sacos.
Nos dirigimos diretamente para a sala de arquivos do hospital. Examinamos e checamos seus prontuários velhos e o atual. Foi possível fazer a reconstituição da sua vida hospitalar e familiar naquela confusão de informações escritas nos papéis. O que nos falara estava escrito nos prontuários e a sua estória começou a ganhar um sentido diferente e real. Naquela tarde, na reunião de acompanhamento de casos, falamos sobre as descobertas que haviam sido feitas. Residentes, assistentes sociais, enfermeiros e terapeutas ocupacionais foram mobilizados para ativar o contato com familiares, estimular contatos grupais, projetar um plano de trabalho para a sua futura saída do hospital. O homem dos sacos agora já não estava só com seus sacos, possuía uma retaguarda disposta a entender o seu dilema com eles. Na verdade eram muitos esses dilemas.
Era conhecido como Papai Noel. Já havia brigado muito com outros pacientes por causa desse apelido. Agredia todos os que ousassem aproximar-se para abrir seus sacos.
A primeira providência tomada pela equipe foi a de resgatar o seu verdadeiro nome. Chamava-se José. Agora todos passariam a chamá-lo pelo seu nome. As assistentes sociais descobriram o endereço da sua tia e de mais três irmãos que residiam na capital.
As reuniões com os familiares tinham o objetivo de restabelecer os contatos e mostrar que, com a ajuda deles, José poderia recuperar a sua posição normal de membro da família. As resistências foram muitas e intensas, mas as esperanças continuavam.
Nessa época compreendemos como era falso o mito da loucura e do “louco varrido”. O psiquismo humano, analogamente ao sistema imunológico do organismo, possui poderosas defesas para preservar o equilíbrio mental. O comportamento “anormal” mantém preservada sua coerência e seu lado saudável para poder suportar os desequilíbrios da família e da sociedade.
Explicando os códigos:
O enigma de José estava contido simbolicamente na sua relação com seus sacos. O saco pequeno, que guardava objetos adquiridos dentro do hospital, representava seus núcleos afetivos hospitalares (grupo afetivo hospitalar) onde passara grande parte da sua vida. Era pequeno porque não lhe interessava muito que crescesse. O saco grande representava seus núcleos afetivos sociofamiliares (família e sociedade) para onde desejava retornar. Era a sua “libertação”, tantas vezes solicitada por requerimentos e cartas.
Seu delírio de riqueza, representado pelo ouro, dinheiro e propriedades, simbolizava o seu abandono pela família, que o deixava mendigo desse afeto tão importante e valioso e que era recolhido pelo chão em forma de objetos, convencionalmente de pouco valor. Denunciava, ao mesmo tempo, a ambição materialista existente em suas família e na sociedade que conhecia. Como não possuía (naquela época só tinha o saco hospitalar) uma forma concreta e palpável de realizar seu desejo, fugiu do hospital para adquiri-lo e o fez maior, depositando-o num saco bem grande. Sua fuga não foi uma indisciplina, mas, tão somente, o resgate material do seu sonho: uma grande vontade de reaproximação sócio-familiar, isto é, um desejo de reintegrar-se à vida real.
Contar e recontar os objetos de cada saco, era manter-se em contato permanente com os dois núcleos afetivos que possuía. Mantê-los sob severa vigilância significava evitar mais um grande roubo afetivo na história da sua vida. Mantê-los separados serviria para distinguir duas histórias completamente diferentes e opostas entre si. Misturar o conteúdo dos sacos seria misturar seus conteúdos diferentes e desorganizar sua cabeça, a sua vida afetiva. Ninguém poderia intrometer-se para não desordenar o que havia conseguido ordenar com tanto trabalho e durante tanto tempo.
Só quem conseguisse, como ele, perceber essas diferenças poderia aproximar-se dos sacos. Naqueles sacos estavam guardadas as únicas coisas de valor que possuía na vida. Os objetos que não serviam mais para os outros, representavam restos de afeto que ele cuidadosamente coletava e selecionava para depois juntar seus pedaços e incorporá-los, enriquecendo o seu mundo pobre de afeto. Selecionar seria o mesmo que separar as boas das más experiências afetivas pelas quais havia passado.
José havia ensacado a sua vida afetiva durante muitos anos para não se sentir só e para preservar sua identidade, sua memória e suas emoções. Conhecia o conteúdo de cada um dos sacos como a palma de sua mão e os mantinha separados para não perder a sua sanidade mental. Evitava os grupos porque o seu grupo original (sua família) o tinha expulsado precocemente do seu convívio e o havia esquecido. Seu grupo confiável eram os sacos, resumo valioso e silencioso de toda a sua história. Como confiar em grupos, se os grupos o rejeitavam e o consideravam como um estranho, um louco?
Nossa relação de amizade estreitava-se cada vez mais e nossas conversas já eram mais longas e profundas. Já eram, quase todas, feitas dentro do consultório. Fomos apresentando gradativamente os membros da equipe para o José. Após certo tempo já não conversávamos mais sozinhos, havia um grupo que conversava, do qual José era membro participante. No princípio falava pouco, mas com o tempo foi tomando a palavra e se incorporando ao trabalho da equipe. José estava experimentando as vantagens de participar do seu primeiro grupo confiável. Denominamos esse grupo de “Grupo Trabalho e Esperança”.
Certa vez ele nos confidenciou que achava que dessa vez iria conseguir sua “‘libertação”. Aquelas pessoas - segundo ele - não estavam mentindo, pois já conseguira algumas visitas dos irmãos, que lhe trouxeram presentes e dinheiro. Suas roupas já não eram tão sujas como antigamente e os banhos não tão insuportáveis assim. Mas os sacos continuavam perto dele.
Nós compreendíamos cada vez mais a solidão de José e, ao mesmo tempo, o nosso despreparo para lidar com casos semelhantes ao dele. Achamos mesmo que as pessoas olham para os “loucos” da mesma forma como olham para as crianças e adolescentes: como se fossem sacos grandes ou pequenos, completamente vazios, ou melhor, cheios de coisas sem valor por conterem dentro de si quinquilharias que necessitam ser selecionadas pelos conselhos e normas “educativas” dos adultos. Que precisam de muita proteção por não possuírem conteúdo e objetivos próprios. Sentem-se donas desses sacos e os carregam de um lado para o outro, segundo seus próprios sonhos e desejos, sem se importarem com os seus próprios conteúdos de valor. Seriam como os sacos de José: simples objetos, cuja função seria a de proteger seu dono com suas presenças. Protegê-lo de sua insegurança e solidão.
José começou a participar de outros grupos de pacientes e ganhava mais confiança em si mesmo. Fazia anos que não tomava remédios no hospital. Era um esquecido hospitalar desde o tempo em que era conhecido como Papai Noel. A partir das nossas primeiras conversas, a equipe havia resolvido que ele não tomaria remédios como parte do seu tratamento. Nunca lhe foi oferecido nem nunca pediu. Continuou sempre assim: sem remédios. Era um antigo membro do grupo da abandonoterapia (apelido que dávamos aos esquecidos), que agora já possuía identidade e se chamava José ; membro com voz e voto dentro do grupo “Trabalho e Esperança”, escolhido e eleito pela equipe do hospital para ser o cidadão de sua própria libertação.
José pediu-nos que guardássemos os seus sacos na sala de reuniões, onde havia um velho armário cheio de desenhos e objetos confeccionados por pacientes da terapia ocupacional. Perguntou se era um lugar seguro e quem guardava as chaves desse armário. Falamos que era seguro e que as chaves ficavam com o nosso grupo. Perguntamos se ele queria ter uma chave só para ele. Aceitou, e a nova chave foi confeccionada e lhe foi entregue. Andava com ela pendurada no pescoço e dormia com ela. Não tinha mais o trabalho de carregar os dois sacos porque os havia trocado provisoriamente por uma chave, símbolo da sua confiança em nosso grupo.
Com o passar do tempo parou de coletar objetos do chão e entrou para um grupo do Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização) que havia sido instalado no hospital para pacientes que queriam aprender a ler e escrever. Seus delírios eram pouco freqüentes e só reapareciam quando retirava seus sacos do armário para tê-los junto a si, e desapareciam quando nos confiava a guarda dos mesmos.
Ensinamos a ele que não revidasse quando alguém, relembrando os velhos tempos, o chamasse de Papai Noel. Para nós e para quase todos ele era o novo cidadão chamado José e deveria ser assim para sempre.
Certo dia seus parentes vieram buscá-lo para que passasse o fim de semana com eles. Concordou em ir e queria levar os sacos, mas o convencemos de que ele, como o novo José, deveria levar apenas a chave do armário. Ele aceitou e foi embora com os parentes. Voltou na segunda feira pela manhã com um terceiro saco. Na verdade não era um saco e sim uma sacola. Estava cheia de objetos diferentes dos outros que estavam no armário. Continha escova, creme dental, roupas, sapato, sandálias, cadernos, biscoitos e um pente novo.
Ele estava alegre, mas conversava pouco com os parentes. Aproveitamos a presença deles e fizemos uma reunião conjunta do grupo “Trabalho e Esperança”.
O grupo ia ficando maior com o passar do tempo e já mostrava alguns resultados. Na reunião, os irmãos queriam que ele saísse do hospital e retornasse para a casa de um deles. O José ficou reticente e acabamos concordando que sua saída teria que ser decidida por ele e que deveria aproveitar e concluir seu curso do Mobral.
Já sabíamos muito a respeito da sua vida familiar. Seus irmãos contaram muitas estórias que não estavam escritas nos prontuários velhos a nem nos novos. Parte de sua família morava na capital e possuía boa situação financeira. O pai de José havia falecido há dez anos, mas sua mãe ainda morava na mesma fazenda com os filhos mais novos.
Numa outra reunião do grupo José pediu que guardássemos sua sacola nova, pois temia que os outros pacientes roubassem seus objetos, fato bastante freqüente entre eles. Queria ficar com alguns objetos de uso pessoal e com a chave do armário. Pediu também que queimássemos os outros dois sacos antigos. Respondemos que os sacos antigos ficariam guardados até um ano após sua saída do hospital. Gostaríamos que ele próprio, após um ano e junto com a sua família, voltasse a nos visitar e junto conosco, procedesse ao ritual de incineração dos velhos sacos. Aceitou a idéia e voltou para a sua aula do Mobral que já havia iniciado há cinco minutos atrás.
O novo José já não era o mesmo homem dos sacos e a nossa equipe já não era a mesma dos velhos tempos. Havíamos aprendido, com ele e com outros pacientes, formas novas de preencher nossos “sacos intelectuais” com conteúdos de muito valor. Nós, José e os outros pacientes estávamos melhorando, mesmo estando todos, internados no mesmo hospício.
Concluído o curso do Mobral ele já escrevia uns bilhetes para os seus familiares. As visitas já eram semanais e as saídas do hospital se prolongavam por uma semana a até por um mês. Estava na hora de José sair.
Na nossa última reunião do grupo “Trabalho e Esperança” fizemos uma brincadeira com José: redigimos uma “Carta de Libertação” concedendo ao Sr. José Oliveira da Silva, os títulos de Cidadão Livre, Membro Honorário da Equipe a de senhor de todos os bens e riquezas que ele conseguisse adquirir dali por diante com o seu próprio esforço. Essa Carta continha também todas as aquisições que fizera desde que passara a se constituir um membro integrante do nosso grupo até aquele dia. Só omitimos na Carta a existência dos dois sacos velhos que ainda jaziam no armário, símbolos de sua loucura, e ao mesmo tempo, da manutenção da sua sanidade. Presenças concretas do seu esforço solitário em manter seu próprio equilíbrio, sem a ajuda de ninguém, durante muitos anos.
José saiu do hospital numa sexta-feira de tarde acompanhado por sua sacola nova, pelos parentes, pelos membros do Grupo Trabalho e Esperança e por alguns pacientes que haviam se tornado seus amigos nos últimos tempos. Sentia-se mais confiante e, na porta de entrada do hospital, se despediu de todos, entrou no carro com seus parentes e desapareceu entre os acenos dos que ficaram.
Lembramos que, quando recebeu sua “Carta de Libertação”, percebeu, com um sorriso, a assinatura de quase todos os médicos do hospital, funcionários e pacientes que o conheciam bem. Mais parecia um abaixo assinado. Já sabia ler e escrever. Apôs seu nome na última linha, dobrou o papel e o colocou no bolso.
O Grupo Trabalho e Esperança já não existia mais e se transformou, naqueles dias, num grande saco vazio com a saída do José.
Ele nunca mais retornou para aquele hospital, não voltou para queimar os sacos. O que foi feito dos sacos velhos nem nós sabemos responder. Talvez, esquecidos como tantas outras quinquilharias do hospital, devem ter recebido o destino do lixo ou queimados sem a nossa presença, numa grande fogueira de São João. O que, aliás, era muito comum acontecer com os papéis velhos.
O candidato
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Iria abrir uma vaga para estudante residente no hospital. Um dos residentes que cursava o sexto ano iria sair em Dezembro. Alguns alunos do quarto e do quinto ano da faculdade freqüentavam o hospital para tentar conseguir a tão disputada vaga. Havia os que, após entrarem em contato com os pacientes, jamais voltavam; outros resistiam heroicamente ao medo e, ainda que temerosos, procuravam se adaptar. Meses antes que essa vaga se consolidasse eles se tornavam assíduos freqüentadores da nossa república. Perguntavam, nos acompanhavam e trocavam idéias sobre os diferentes trabalhos realizados no hospital. O estudante que conseguisse a vaga receberia, além de uma bolsa equivalente a um salário mínimo, alimentação gratuita fornecida pelo hospital e um certo prestígio junto aos outros alunos da faculdade.
Os residentes veteranos possuíam uma relativa experiência, uma espécie de “olho clínico” para perceber o perfil psicológico dos candidatos à vaga. Além de paciência, “sangue frio” e disposição para um trabalho duro, era preciso ter uma razoável estrutura pessoal para conviver durante alguns anos num hospício.
Um dos candidatos era o Tarcísio, jovem de raciocínio lento, muito meticuloso e excessivamente organizado. Não gostava de abraçar os pacientes e evitava os contatos que pudessem macular a brancura das suas roupas. Mas era persistente e não desistia facilmente de lutar pela vaga. Não era muito admirado pelos residentes e pela maioria dos funcionários; sempre perguntava se a comida era de boa qualidade e se o pagamento saia direitinho no final do mês.
Certa tarde os residentes reunidos resolveram submeter o Tarcísio a uma bateria de testes que pudesse comprovar sua boa vontade e interesse pelo trabalho, uma espécie de “prova de fogo” que conseguisse checar seu preparo para trabalhar naquele hospital, separando a vocação pela vaga da vocação pelo trabalho. Esses testes teriam que ser mantidos em segredo pelos residentes até seu término. Era justo que tivesse que enfrentar os testes, pois, pelo que se podia perceber, ele não conseguiria suportar seis meses de permanência naquele lugar, ocupando a vaga desnecessariamente. As experiências diárias com os pacientes eram difíceis e inusitadas.
Certa vez um dos residentes voltara para o quarto rindo muito e, ao mesmo tempo, se lamentando. Um paciente que estava sendo entrevistado havia arrancado bruscamente os seus óculos e os partira ao meio, ficando com a outra metade. O paciente argumentara que repartir os óculos em dois pedaços e ficar com um deles para si, lhe parecia mais justo do que deixar o residente ser proprietário de ambos os lados. Lançar objetos, gritar com o entrevistador, agarrar-se ou rasgar as roupas do interlocutor e fazer reclamações intermináveis, eram situações de rotina naquele lugar.
O Tarcísio precisava engraxar seus sapatos brancos. Fora informado de que havia um paciente experiente nesse ofício. Os sapatos foram levados para a ala masculina e voltaram muito bem engraxados, mas sem o couro dos bicos. Quem os calçasse ficaria com os dedos à mostra. O Tarcísio ficou irritado com o prejuízo, mas o residente que os trouxe falou que o paciente decidiu que assim ficaria melhor, pois fazia muito calor naqueles dias.
Outras brincadeiras foram feitas com o Tarcísio. Colocar bolas de manteiga no bico dos sapatos, cortar todos os botões da roupa ou esconder objetos de uso pessoal, eram formas de testar sua paciência e esportividade. Mas ele resistia e continuava freqüentando a república e o hospital. Mas chegou o dia em que um dos residentes teve uma idéia genial, um verdadeiro teste-limite para o candidato. Esse seria o último a ser feito para completar a bateria.
Havia um senhor já velho - o Habib - paciente antigo no hospital. Morava no mesmo quarto coletivo junto com os residentes. Ajudava nos serviços domésticos: arrumava as camas, recolhia a roupa suja, esquentava a comida, servia as refeições e varria o quarto. Era libanês e veio tentar sua vida no Brasil no tempo em que ainda era bem novo. Muito prestativo e educado já vira passar muitos outros estudantes que viveram parte de suas vidas naquele quarto. Ganhava meio salário mínimo pago pelo hospital, merecia uma atenção especial e recebia presentes dos estudantes e funcionários. De vez em quando entrava em crises delirantes onde relembrava os velhos tempos em que era comerciante de peles e de outros produtos. Foi comerciante ambulante, dono de “regatão1” e havia viajado por grande extensão da Amazônia brasileira e em algumas localidades da Bolívia, do Peru e da Colômbia.
O Habib foi chamado para uma reunião secreta e lhe foram explicados todos os detalhes do novo plano. Ele sorria e concordava balançando a cabeça num gesto afirmativo. Era um veterano e já tinha sido protagonista de muitas encenações e brincadeiras com diferentes gerações de estudantes.
O Tarcísio guardava um certo temor do velho Habib, sobretudo quando este começava a delirar. Fora inventada uma estória sobre suas crises. Dizia-se que, nesses momentos, ele se tornava agressivo, perigoso. Havia, em algumas ocasiões, empunhado garfos e facas para atingir quem estivesse próximo. Era um homicida impulsivo que já havia feito três vítimas, por motivos fúteis, quando ainda exercia sua atividade de comerciante. Não deveria ser perturbado de forma alguma quando demonstrasse comportamento delirante ou esquisito, situações em que poderia alterar seu humor e transformar-se num terrível predador. Essa estória era contada para os estudantes visitantes que não mereciam a simpatia dos residentes.
O Tarcísio foi convidado para almoçar no domingo com os residentes. Nesse dia todos vestiram suas roupas mais velhas e usavam sandálias de borracha. Quando o Tarcísio chegou, cabelos bem penteados e de roupa nova, estavam todos conversando animadamente, sentados ou deitados sobre as camas. Após certo tempo o Habib interrompeu a conversa e, educadamente, convidou a todos para sentarem-se à mesa. A comida era muita e estava com uma aparência convidativa. Todos já haviam se servido quando o velho Habib, de repente, começou a fazer um discurso para o fogão, como se o fogão fosse uma pessoa. Insultava o fogão e, subitamente, entoava canções de amor para ele. Falava e cantava, ora em português, ora em árabe e também em espanhol. O Tarcísio, de olhos arregalados, estava perplexo assistindo aquele ritual estranho. Os residentes estavam quietos e olhavam apenas para seus pratos cheios de comida. Alguém sussurrou para o Tarcísio: “Olha para o teu prato e fica quieto. Ele está delirando”. Ele obedeceu e ficamos assistindo a representação magistral do Habib.
Encerrado o ritual com o fogão, o velho ator se aproximou da mesa dando gargalhadas e falando palavras desconexas. Pegou uma grande concha e começou a distribuir a comida que estava nas travessas por sobre as cabeças de cada um dos participantes do almoço. Colocava macarrão, arroz, salada e feijão por dentro das camisas e por sobre os braços e pernas dos convidados e às vezes provava com a língua e estalando-a comentava: “O tempero está no ponto!” Cantava e discursava enquanto ia lambuzando todos. Os residentes começaram a imitar o Habib e logo estavam depositando comida na cabeça e nas roupas dos vizinhos mais próximos. Rindo e cantando junto com o Habib o grupo formava um coro e manifestava uma grande alegria em participar daquele estranho festival de comidas. O Tarcísio, assustadíssimo, foi sendo obrigado a submeter-se aos procedimentos. Entre sorrisos amarelos e sem compreender o que estava acontecendo, participou a contragosto daquela orgia alimentar.
Quando a comida acabou o Habib, ainda cantando, foi apanhar toalhas de banho para todos e organizou uma fila em frente ao banheiro. Após o banho todos ajudaram na faxina para limpar a sujeira espalhada por sobre a mesa, pelo chão e pelas paredes do refeitório. Foram emprestadas roupas limpas para o Tarcísio voltar para casa. Essa foi a última vez que o vimos no hospital. Perdemos, assim, o nosso candidato.
regatão1 - tipo de comércio ambulante. Aquele que compra em grosso para vender a retalho. Vendedor que percorre os rios de barco, parando de lugar em lugar: "Os regatões são os traficantes que levam em canoas, por todos os rios, lagoas, furos e lugares, mercadorias estrangeiras ou nacionais, e as vendem a dinheiro, ou as permutam pelos produtos do país". (Aurélio).
Iria abrir uma vaga para estudante residente no hospital. Um dos residentes que cursava o sexto ano iria sair em Dezembro. Alguns alunos do quarto e do quinto ano da faculdade freqüentavam o hospital para tentar conseguir a tão disputada vaga. Havia os que, após entrarem em contato com os pacientes, jamais voltavam; outros resistiam heroicamente ao medo e, ainda que temerosos, procuravam se adaptar. Meses antes que essa vaga se consolidasse eles se tornavam assíduos freqüentadores da nossa república. Perguntavam, nos acompanhavam e trocavam idéias sobre os diferentes trabalhos realizados no hospital. O estudante que conseguisse a vaga receberia, além de uma bolsa equivalente a um salário mínimo, alimentação gratuita fornecida pelo hospital e um certo prestígio junto aos outros alunos da faculdade.
Os residentes veteranos possuíam uma relativa experiência, uma espécie de “olho clínico” para perceber o perfil psicológico dos candidatos à vaga. Além de paciência, “sangue frio” e disposição para um trabalho duro, era preciso ter uma razoável estrutura pessoal para conviver durante alguns anos num hospício.
Um dos candidatos era o Tarcísio, jovem de raciocínio lento, muito meticuloso e excessivamente organizado. Não gostava de abraçar os pacientes e evitava os contatos que pudessem macular a brancura das suas roupas. Mas era persistente e não desistia facilmente de lutar pela vaga. Não era muito admirado pelos residentes e pela maioria dos funcionários; sempre perguntava se a comida era de boa qualidade e se o pagamento saia direitinho no final do mês.
Certa tarde os residentes reunidos resolveram submeter o Tarcísio a uma bateria de testes que pudesse comprovar sua boa vontade e interesse pelo trabalho, uma espécie de “prova de fogo” que conseguisse checar seu preparo para trabalhar naquele hospital, separando a vocação pela vaga da vocação pelo trabalho. Esses testes teriam que ser mantidos em segredo pelos residentes até seu término. Era justo que tivesse que enfrentar os testes, pois, pelo que se podia perceber, ele não conseguiria suportar seis meses de permanência naquele lugar, ocupando a vaga desnecessariamente. As experiências diárias com os pacientes eram difíceis e inusitadas.
Certa vez um dos residentes voltara para o quarto rindo muito e, ao mesmo tempo, se lamentando. Um paciente que estava sendo entrevistado havia arrancado bruscamente os seus óculos e os partira ao meio, ficando com a outra metade. O paciente argumentara que repartir os óculos em dois pedaços e ficar com um deles para si, lhe parecia mais justo do que deixar o residente ser proprietário de ambos os lados. Lançar objetos, gritar com o entrevistador, agarrar-se ou rasgar as roupas do interlocutor e fazer reclamações intermináveis, eram situações de rotina naquele lugar.
O Tarcísio precisava engraxar seus sapatos brancos. Fora informado de que havia um paciente experiente nesse ofício. Os sapatos foram levados para a ala masculina e voltaram muito bem engraxados, mas sem o couro dos bicos. Quem os calçasse ficaria com os dedos à mostra. O Tarcísio ficou irritado com o prejuízo, mas o residente que os trouxe falou que o paciente decidiu que assim ficaria melhor, pois fazia muito calor naqueles dias.
Outras brincadeiras foram feitas com o Tarcísio. Colocar bolas de manteiga no bico dos sapatos, cortar todos os botões da roupa ou esconder objetos de uso pessoal, eram formas de testar sua paciência e esportividade. Mas ele resistia e continuava freqüentando a república e o hospital. Mas chegou o dia em que um dos residentes teve uma idéia genial, um verdadeiro teste-limite para o candidato. Esse seria o último a ser feito para completar a bateria.
Havia um senhor já velho - o Habib - paciente antigo no hospital. Morava no mesmo quarto coletivo junto com os residentes. Ajudava nos serviços domésticos: arrumava as camas, recolhia a roupa suja, esquentava a comida, servia as refeições e varria o quarto. Era libanês e veio tentar sua vida no Brasil no tempo em que ainda era bem novo. Muito prestativo e educado já vira passar muitos outros estudantes que viveram parte de suas vidas naquele quarto. Ganhava meio salário mínimo pago pelo hospital, merecia uma atenção especial e recebia presentes dos estudantes e funcionários. De vez em quando entrava em crises delirantes onde relembrava os velhos tempos em que era comerciante de peles e de outros produtos. Foi comerciante ambulante, dono de “regatão1” e havia viajado por grande extensão da Amazônia brasileira e em algumas localidades da Bolívia, do Peru e da Colômbia.
O Habib foi chamado para uma reunião secreta e lhe foram explicados todos os detalhes do novo plano. Ele sorria e concordava balançando a cabeça num gesto afirmativo. Era um veterano e já tinha sido protagonista de muitas encenações e brincadeiras com diferentes gerações de estudantes.
O Tarcísio guardava um certo temor do velho Habib, sobretudo quando este começava a delirar. Fora inventada uma estória sobre suas crises. Dizia-se que, nesses momentos, ele se tornava agressivo, perigoso. Havia, em algumas ocasiões, empunhado garfos e facas para atingir quem estivesse próximo. Era um homicida impulsivo que já havia feito três vítimas, por motivos fúteis, quando ainda exercia sua atividade de comerciante. Não deveria ser perturbado de forma alguma quando demonstrasse comportamento delirante ou esquisito, situações em que poderia alterar seu humor e transformar-se num terrível predador. Essa estória era contada para os estudantes visitantes que não mereciam a simpatia dos residentes.
O Tarcísio foi convidado para almoçar no domingo com os residentes. Nesse dia todos vestiram suas roupas mais velhas e usavam sandálias de borracha. Quando o Tarcísio chegou, cabelos bem penteados e de roupa nova, estavam todos conversando animadamente, sentados ou deitados sobre as camas. Após certo tempo o Habib interrompeu a conversa e, educadamente, convidou a todos para sentarem-se à mesa. A comida era muita e estava com uma aparência convidativa. Todos já haviam se servido quando o velho Habib, de repente, começou a fazer um discurso para o fogão, como se o fogão fosse uma pessoa. Insultava o fogão e, subitamente, entoava canções de amor para ele. Falava e cantava, ora em português, ora em árabe e também em espanhol. O Tarcísio, de olhos arregalados, estava perplexo assistindo aquele ritual estranho. Os residentes estavam quietos e olhavam apenas para seus pratos cheios de comida. Alguém sussurrou para o Tarcísio: “Olha para o teu prato e fica quieto. Ele está delirando”. Ele obedeceu e ficamos assistindo a representação magistral do Habib.
Encerrado o ritual com o fogão, o velho ator se aproximou da mesa dando gargalhadas e falando palavras desconexas. Pegou uma grande concha e começou a distribuir a comida que estava nas travessas por sobre as cabeças de cada um dos participantes do almoço. Colocava macarrão, arroz, salada e feijão por dentro das camisas e por sobre os braços e pernas dos convidados e às vezes provava com a língua e estalando-a comentava: “O tempero está no ponto!” Cantava e discursava enquanto ia lambuzando todos. Os residentes começaram a imitar o Habib e logo estavam depositando comida na cabeça e nas roupas dos vizinhos mais próximos. Rindo e cantando junto com o Habib o grupo formava um coro e manifestava uma grande alegria em participar daquele estranho festival de comidas. O Tarcísio, assustadíssimo, foi sendo obrigado a submeter-se aos procedimentos. Entre sorrisos amarelos e sem compreender o que estava acontecendo, participou a contragosto daquela orgia alimentar.
Quando a comida acabou o Habib, ainda cantando, foi apanhar toalhas de banho para todos e organizou uma fila em frente ao banheiro. Após o banho todos ajudaram na faxina para limpar a sujeira espalhada por sobre a mesa, pelo chão e pelas paredes do refeitório. Foram emprestadas roupas limpas para o Tarcísio voltar para casa. Essa foi a última vez que o vimos no hospital. Perdemos, assim, o nosso candidato.
regatão1 - tipo de comércio ambulante. Aquele que compra em grosso para vender a retalho. Vendedor que percorre os rios de barco, parando de lugar em lugar: "Os regatões são os traficantes que levam em canoas, por todos os rios, lagoas, furos e lugares, mercadorias estrangeiras ou nacionais, e as vendem a dinheiro, ou as permutam pelos produtos do país". (Aurélio).
O sanfoneiro
Entrou no consultório o último paciente que iria se atendido naquele tarde de sexta-feira. Era um homem baixo, atarracado, com a cabeça globosa e ar simpático. Seu rosto era expressivo, falava em voz baixa com ritmo pausado, quase suplicante.
O cansaço era visível no rosto do residente, depois de uma semana cheia e movimentada. Ele já se via caminhando para o quarto, tomando um bom banho e jantando. Depois decidiria se iria a um cinema ou a qualquer outro lugar.
Com jeito humilde e embaraçado o homem falou: “Doutor, eu não quero tomar muito o seu tempo; queria só uma explicação e uma ajuda”. Olhando sempre para suas mãos, informou que tocava sanfona e queria se aperfeiçoar mais. Tinha a impressão que as peles que uniam a base dos seus dedos dificultavam o movimento de cada dedo isoladamente. Explicou que quando mexia um dedo o do lado também se mexia. Isso, segundo ele, atrapalhava a autonomia de cada dedo e poderia ser o fator responsável pelos seus erros quando estava tocando o instrumento. Queria também aprender datilografia e esse “problema” poderia incomodá-lo. Perguntou se aquelas peles eram mesmo necessárias e se era possível fazer uma cirurgia para corta-las um pouco. Talvez, assim, pudesse ficar com os dedos mais livres, mais ágeis, diminuindo seus erros.
Os olhos e ouvidos do residente estavam centrados na estória do sanfoneiro. Estava perplexo, pois nunca havia se deparado com um “problema” daquele tipo. Enquanto o sanfoneiro falava o residente, num turbilhão de idéias, pensava nas possibilidades de solução para o caso. Ao encerrar sua estória suplicou para que o residente fizesse a cirurgia de que tanto necessitava. Ao se despedir o residente prometeu que iria ouvir a opinião de um colega que fazia estágio em cirurgia geral. Assim que tivesse uma resposta o informaria sobre o que fazer nesse caso.
Por coincidência o residente encontrou-se com o colega estagiário no dia seguinte e contou o caso do sanfoneiro. Depois de rir muito o estagiário ficou pensativo e falou: “Sabe que eu nunca tinha pensado nisso. Não sei realmente qual seria o efeito desse tipo de cirurgia”.
O residente decidiu arbitrariamente que a cirurgia não deveria ser tentada e comunicou essa decisão ao sanfoneiro. Argumentou dizendo que tudo o que a natureza faz tem algum sentido e função. O sanfoneiro baixou a cabeça e ficou em silêncio, parecendo ter se conformado com a explicação. O residente, porém, ficou em dúvida se agiu de modo acertado, mas com a convicção de não iria ser ele o autor da estranha cirurgia.
Ruídos na noite
Chegou na portaria e deparou com a cena que ainda se desenrolava. O chão estava coberto de cacos de vidro. Duas viaturas da polícia militar estavam paradas na rua. Oito policiais militares, com cordas nas mãos, se protegiam por detrás do enorme portão de entrada do hospital. Um sargento com dois metros de altura, com as mãos sangrando, ainda quebrava os restos de vidros da estante da portaria. Ele estava enfurecido e com cheiro de bebida; insultava os policiais que o observavam através do portão de ferro, pelo lado de fora. O porteiro do hospital, acuado num canto, pedia calma enquanto olhava os pedaços de vidro espalhados pelo chão.
O sargento enfurecido viu o residente chegar e partiu ameaçador em sua direção. O residente sentiu as pernas irem ficando duras enquanto o coração parecia disparar e bater na garganta. Teve a impressão de que um pesado trator iria lhe esmagar sem que pudesse mover-se. O sargento-gigante abotoou-o pelo jaleco e quase o tira do chão. Em seguida falou:
- É você que é o Doutor?
O residente balbuciou:
- Sim...
O sargento falou:
- Já tomei dez cachaças só para poder dar um bafo na cara de um doutor. E deu o bafo.
O sangue voltou a circular no corpo do residente e ele, tentando manter-se calmo, falou:
- Se você soltar o meu jaleco, acho que podemos conversar.
O residente usava toda a sua coragem para aparentar calma e serenidade naquele momento. O sargento olhou ao redor e aos poucos foi soltando sua roupa. Para acalmá-lo e para evitar que suas próprias pernas tremessem o residente convidou-o a sentar-se num banco que estava próximo. As forças do residente estavam voltando e ele perguntou o que estava acontecendo. O sargento falava alto, gesticulava e ia respingando sangue e saliva. Olhava para os colegas e os insultava com palavrões, maldizia sua corporação, criticava o hospital, sua própria família e ameaçava o porteiro. Estava muito agitado. Fazia quatro noites que não dormia e bebia muito para se acalmar.
De vez em quando interrompia o relato para chamar os colegas de covardes, traidores e outras expressões impublicáveis. O residente ficou ouvindo durante quase uma hora as suas queixas e indignações. Falou:
- Não vou ficar internado. Se tentarem isso eu quebro esse hospital. Só quero dormir um pouco e tirar essa confusão da minha cabeça.
O residente respondeu que não seria obrigado a ficar. Poderia cuidar dos ferimentos e logo em seguida, se quisesse, sairia. Mas se quisesse dormir um pouco tínhamos remédio para isso e para a “confusão na cabeça”. Resistiu muito, mas, finalmente, fez um acordo: cuidaria dos ferimentos, dormiria aquela noite no hospital e quando acordasse voltaria a conversar e fazer novo acordo. Ele aceitou, mas na hora de tomar a injeção de sedativo ameaçou o enfermeiro:
- Se doer, eu vou quebrar a cara dele – falou olhando com a cara feia para o enfermeiro.
O residente não concordou com a ameaça e mandou suspender a injeção. Falou que ele estava recusando nossa ajuda e que a alternativa que restava seria a de mandá-lo de volta para o quartel. Ele logo reagiu e concordou que precisava dormir porque estava muito cansado. Foi feito o sedativo e, após alguns segundos, a montanha começou a desmoronar. Suas pálpebras foram ficando pesadas, suas palavras se desarticulavam e aquele corpo de mais de cem quilos se dobrou de lado e foi deitando no banco. Caiu em profundo sono e seus colegas de farda ajudaram o enfermeiro a colocá-lo na maca. Foi levado para o interior do hospital. O residente voltou para sua cama aliviado, mas não conseguia dormir; seu corpo ainda tremia e o ruído do despertador anunciava que um novo dia estava começando.
A professora de mitologia
Na ala feminina havia uma paciente que era professora universitária e especialista em História da Civilização Grega. Era bem branca, alta e magra, seu rosto apresentava traços finos, elegantes, denotava um ar aristocrata. Seu porte altivo e ereto e sua fisionomia séria e imponente impunham muito respeito. Seu timbre de voz era agudo e estridente. Falava sem parar.
Certa manhã abordou o residente no corredor reclamando que seu médico a estava obrigando a tomar muitos tranqüilizantes. O residente conversou com seu médico e ele concordou em transferir para ele a continuidade do seu tratamento. O residente retirou uma parte dos remédios e aumentou o número de entrevistas.
Certo dia ela perguntou ao residente o que ele sabia a respeito de mitologia grega. Ele respondeu: “Quase nada”. Ela o censurou e perguntou em qual ano da faculdade ele estava. Falou que estava no quinto ano. Ela, ironicamente, perguntou como ele poderia ser médico dela se ainda não havia concluído o curso e ela já havia até lecionado em sua universidade. O residente falou que estava treinando para cuidar de pessoas e que gostava muito desse trabalho.
Brigou com ele durante muito tempo e, após certo período, passou a tratá-lo como filho e como aluno. Essas entrevistas se transformaram em aulas de mitologia grega e ele se tornou um ouvinte atento e aprendeu muita coisa que não sabia sobre a Grécia Antiga. Nos intervalos das aulas falava sobre sua vida. Era solteira, tinha cinqüenta e oito anos, morava só num apartamento modesto e estava aposentada. Sentia-se muito solitária. Nunca dera sorte no amor, pois, segundo dizia, os homens a temiam e não conseguiam se aproximar.
No dia da sua alta pediu desculpas por ter sido ríspida com ele em algumas entrevistas, abriu sua bolsa e ofereceu um velho livro sobre a História da Civilização Grega. O residente sorriu e a abraçou em agradecimento. Ela despediu-se e saiu do hospital acenando com a mão e com a bolsa pendurada no ombro.
Os loucos e o governador
O diretor do hospital, figura de grande influência política, havia convidado algumas autoridades para a inauguração das reformas feitas recentemente nessa área de lazer e para participarem da festa que marcava essa obra. O convidado central era o governador do Estado, que vinha sempre acompanhado de numerosa comitiva. Dois internos, um branco e um negro adoravam ficar próximo às autoridades nas inaugurações e festas que ocorriam no hospital. Já era um fato comum e repetido em outras ocasiões.
No dia dos preparativos para a festa o hospital mais parecia um formigueiro. Enquanto uns levavam cadeiras e mesas, outros colavam bandeirolas ou estavam varrendo o chão, carregando lenha e ajudando na cozinha. No final da tarde a festa começou. Os internos dançavam pela música de um velho sistema de som instalado às pressas. Mais tarde alguém pede a palavra e anuncia a chegada do governador e sua comitiva. Todos pararam de dançar e ficaram assistindo aos longos discursos feitos pelas autoridades. Após o discurso do governador elogiando o hospital, seguiram-se as palavras de agradecimento do diretor. Foram servidas as comidas e bebidas.
O paciente negro, junto ao governador, observava com atenção olhando-o de cima a baixo enquanto ele saboreava as deliciosas comidas e bebidas. Quando ele, satisfeito, se despedia para sair o paciente negro o interrompeu e falou: “Doutor, agora que o senhor já comeu bem, está na hora de ajudar a gente a levar de volta para o refeitório as mesas e as cadeiras”. O paciente branco, visivelmente embaraçado e cumprimentando o governador, falou: “Não se preocupe excelência, o nosso amigo aqui é um paciente em recuperação. Ele é gente boa. Estava só brincando”. O governador, um pouco constrangido, disfarçou com um sorriso eleitoral, cumprimentou ambos os internos e foi saindo. Atrás dele foram as autoridades, o diretor, sua comitiva e os adeptos da ala conservadora. Agora já era possível o representante do governo estadual conversar e apertar a mão dos “loucos”.
Entrando e conhecendo o hospital
O antigo e amplo casarão hospitalar, de arquitetura neoclássica, ocupava uma quadra inteira, cerca de dez mil metros quadrados e abrigava os pacientes separados em duas alas: do lado direito ficava a ala feminina com aproximadamente oitocentas pessoas e do esquerdo a ala masculina, com cerca de setecentos ocupantes. Os médicos também se dividiam em duas categorias: os que possuíam idéias antigas e praticavam a psiquiatria tradicional com seus diagnósticos, remédios e eletrochoques e os que defendiam idéias novas e propugnavam por mudanças e por uma visão mais humanista e integradora em relação aos internos. Por ser um hospital pobre – contava com poucos recursos do governo estadual – funcionava também como se fora uma Santa Casa de Misericórdia, pois outros hospitais costumavam recusar atendimento à “doentes mentais”. Clinica geral, pequenas cirurgias e até partos eram feitos, sempre que possível, no próprio hospital; só em casos especiais os doentes eram encaminhados para receber atendimento externo.
Entre os internos havia o grupo dos “muito pobres” que não mais recebia visita dos familiares e não contava com qualquer atenção ou tratamento no hospital. Esses esquecidos eram chamados de grupo da abandonoterapia. Outro grupo era o dos “menos pobres”, que ainda tinha familiares e visitas, recebia algum tipo de atenção e tratamento e ainda se esforçava para fazer contatos com os funcionários, médicos e residentes. Eram mantidos pela previdência social. Outro grupo era constituído de pacientes particulares, pouco numeroso e que gozava de maiores regalias entre alguns médicos e funcionários – eram os pagantes, cuja permanência costumava ser muito curta.
Os universitários residentes escolhiam apoiar e seguir a linha progressista dos médicos e funcionários voltados a provocar mudanças na estrutura e funcionamento do velho hospital. Embora simples estudantes possuíam um certo poder dentro do hospital pelo fato de residir lá dentro. Seguiam um sistema de plantões de vinte e quatro horas feito em rodízio, com isso estavam em contato permanente com internos e funcionários. Havia também uma contínua troca de informações entre residentes sobre fatos e ocorrências do dia, o que os deixava razoavelmente atualizados. Os outros funcionários e a direção, ao término do expediente diurno, retornavam para as suas residências e voltavam no dia seguinte. Após o horário de expediente normal o residente de plantão assumia a direção, podendo ser chamado a qualquer hora da noite para decidir sobre assuntos ligados ao funcionamento normal das atividades.
Em três anos de convivência com internos, médicos e funcionários fica mais fácil compreender como é doloroso não ter família, ser pobre e perder a condição de ser tratado com a dignidade que merece um cidadão ou cidadã. O rótulo da “doença mental” determina não apenas uma perda dos direitos, mas, sobretudo, das três grandes aspirações desejadas pelo homem civilizado:
· Perda do poder político (restrição da vontade, do ato, da liberdade).
· Perda do poder econômico (restrição da administração dos bens)
· Perda da dignidade pessoal (cidadania, restrição da identidade social).
O alienado mental, como ainda é chamado, perde sua condição legal de cidadão, perde o poder sobre seus bens materiais, perde o contato com sua família e com a sociedade e cria dentro de si um mundo próprio, onde imagina “compensar” todas as perdas que o seu delírio possa recuperar. Na verdade ele ganha a pobreza, o abandono e a desatenção. Perde a cidadania e ganha outra condição – a de louco.
Um levantamento realizado no hospital com todos os internos confirmou a existência de dois grupos de pacientes: os que ainda conseguiam estabelecer algum contato pessoal e os que não conseguiam (ou não queriam?) fazer contatos. Foram identificadas duzentas e oitenta e três pessoas que viviam em completo estado de abandono, esquecidos pela instituição e que perambulavam sem identidade e sem qualquer objetivo pessoal. Eram como zumbis, já não sabiam falar o próprio nome, nem lembravam dos familiares ou de endereços; eram mortos-vivos esquecidos de si mesmos e de todos. Eram conhecidos como “pacientes crônicos”, “terminais” ou “irrecuperáveis”, isto é, o lixo humano da instituição. Como não participavam de atividades e também não recebiam qualquer tipo de tratamento, foram ironicamente chamados pelos residentes de “grupo da abandonoterapia”.
Os residentes eram proibidos de fazer prescrições por conta própria e de alterar o rumo dos tratamentos médicos instituídos. Ficava difícil, portanto, mudar a situação existente. Começaram, junto com alguns médicos e funcionários, a projetar uma nova organização para o hospital. Era necessário ter muita habilidade porque já sabiam que, mudar e melhorar o atendimento iria mexer com muitos interesses, expor vários erros, apontar omissões e distribuir melhor as responsabilidades.
Pacientes particulares podiam receber visitas diárias e até em fins-de-semana. Os mantidos pela previdência eram atendidos semanal ou mensalmente em entrevistas-relâmpago. Outros podiam ficar meses sem qualquer atendimento. A atuação de alguns médicos chegava a ser absurda e, algumas vezes, até cômica. Havia médicos que prescreviam eletrochoques, outros davam passes magnéticos em seus pacientes e outros médicos os esqueciam durante meses. Certa vez os residentes foram informados pelo enfermeiro de plantão que um profissional costumava reunir quinze pacientes e, numa cena que mais parecia um programa de auditório de televisão, contava piadas e prescrevia em grupo, ou seja, todos os integrantes do grupo recebiam o mesmo padrão de tratamento medicamentoso. A prescrição era escrita em um prontuário e recopiada para os demais.
A proposição de mudanças encabeçada pelo grupo progressista iniciou um estado de guerra na instituição. De um lado ficavam os defensores da estagnação e do outro os adeptos da mudança e reorganização. O diretor do hospital, homem liberal e cauteloso, ocupou uma posição moderadora entre as partes.
Certa vez um dos médicos da ala conservadora, criticando um trabalho de pesquisa iniciado por dois residentes e orientado por outro médico progressista, assim se pronunciou na reunião semanal: “Não acredito que estudantes de medicina estejam preparados para desenvolver um trabalho científico. Há muitos que, com um QI de imbecil, conseguem passar no exame vestibular”. Retrucou uma médica da ala progressista, completando a fala: “... e se formar, doutor!”. Era assim naqueles tempos: batalhas verbais, boicotes, críticas pesadas e ameaças.
O tempo foi conseguindo mostrar que o hospital servia mais para manter os interesses dos poderosos e prepotentes adeptos da ala conservadora do que para atender bem aos internos e oferecer treinamento de qualidade para os residentes. Manter a situação estagnada servia aos propósitos e privilégios adquiridos até então pelos controladores da mente e da “doença mental”; mudar e organizar significava o fim do parasitismo institucional e a perda do poder e dos privilégios de alguns. O “doente mental” servia como matéria prima para a manutenção do caos. Foi possível compreender que a expressão “saber científico” não possui qualquer valor real; que ela pode servir aos detentores do saber segundo suas próprias intenções, sobretudo quando dignidade e cidadania são substituídas pela ganância e voracidade dos que controlam o poder do conhecimento.
A medida em que o hospital ia ficando cada vez menos doente, os pacientes melhoravam. Já não ficavam tão presos e mendigos porque eram estimulados a sair e reivindicar seus direitos. Participavam de festas, jogos, passeios e pequenas viagens e excursões. O estímulo às suas famílias aumentava o número de visitas e provocava a diminuição das doses de remédios e da freqüência dos eletrochoques. Os conservadores se irritavam e alguns pacientes já conseguiam sorrir. Havia um certo temor de irritar demasiadamente os conservadores para evitar que os sorrisos se transformassem em gargalhadas de deboche. Era necessário atenuar os atritos e mantê-los em nível suportável, o importante era que o clima de livre expressividade continuasse crescendo e sufocasse o autoritarismo da instituição. Esse clima era muito bem-vindo e desejado por internados e residentes.
Na verdade o clima existente em um hospital psiquiátrico não difere muito de outras instituições como família, escola e empresa. A liberdade quando se torna expressiva, solidária e responsável acaba se tornando construtiva e alegre.
O individual e o coletivo
Se olharmos o corpo sob uma visão puramente biológica iremos compreendê-lo como um conjunto de órgãos cujas funções foram projetadas geneticamente para manter a vida material equilibrada - a saúde orgânica. Ao concebermos um ser-animado alargamos essa visão restrita e, vendo-o na interação com outros, passamos a admitir a necessidade da sua existência em grupos humanos estáveis, aquilo que chamamos de vida social. As características dessa associação em grupos, por sua vez, irão determinar não apenas sua sobrevivência mas, sobretudo, a qualidade de vida que poderá ter.
Observando a vida social dos grupos humanos “in loco” – e através de estudos etnológicos – percebemos muitas diferenças entre o conviver coletivo das sociedades naturais e o conviver individualista nas sociedades contemporâneas. Apontamos o processo civilizatório como o mais provável divisor de águas nessa composição de diferenças e a criação do Estado Nacional como instituto que permite e mantém as desigualdades sociais – um equivoco institucionalizado.
A sobrevivência sempre foi um forte estímulo mobilizador do comportamento humano. Em épocas remotas, quando o homem só podia contar com o ambiente natural para sobreviver, necessitava da força do grupo como elemento indispensável para manter-se vivo. O individuo sempre precisou estar ligado a grupos para existir, sobreviver e identificar-se como individualidade.
É possível que os avanços tecnológicos – desde a invenção da flecha e da roda até a corrida espacial – produções humanas, tenha contribuído fortemente para as mudanças nas relações dos grupos humanos atuais. É preciso admitir que a divisão dos bens produzidos e da riqueza material é tarefa difícil. Exige qualidades nem sempre a disposição de todos os indivíduos.
Pierre Clastres, etnólogo francês que estudou os índios Ianomâmi refere-se a aspectos profundos da sua organização sócio-politico-religiosa contida no cerne de sua vida tradicional. Uma profunda sabedoria extraída da síntese do comportamento desse povo – que não conhece e nem aceita a estrutura política do Estado Moderno - poderia ser traduzida pela seguinte expressão: “Seres humanos nunca estarão preparados para lidar com grandes volumes de poder. Quando isso acontece eles perdem a razão e se tornam violentos. E todo o povo sofre”.
Foi com essa visão que conseguimos conceber o caos que representa a vida civilizada: na existência dos hospitais psiquiátricos, das instituições prisionais e dos lixões habitados das grandes metrópoles. Se os índios Ianomâmi estiverem com a razão, nós os civilizados, precisamos descobrir outras formas de conviver. Essa é uma questão antiga que remonta a muitos séculos, antes mesmo do aparecimento do Cristo.
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